Sansão

Um homem se mudou.
Entre as coisas que deixou
um cãozinho abandonou.

Era pequeno, teve fome,
um vizinho o acolheu,
sua fome saciou.

Em sua filha pensou:
ela estava solitária.
À casa dela o levou.

No quintal o colocou,
água e comida arrumou,
só depois a avisou.

Quando em casa ela chegou
seu novo amigo conheceu,
de Sansão o batizou.

Tanto amor recebeu,
tanta alegria sentiu
quando esse cão aceitou.

Ele sempre exprimiu
amizade a quem via,
nunca alguém ignorou.

Com os parentes brincou,
os vizinhos agradou,
atenção sempre adorou.

Ela nunca mais ficou só,
Sansão sempre perto está.
Nunca a decepcionou.

Mesmo quando, cansada,
não podia brincar,
ele sempre aguardou.

A família aumentou.
Quando Sansão viu o gato
não o maltratou.

O tempo passou,
e agora uma cachorrinha
o quintal invadiu.

Sansão a protegeu
e, junto a sua dona,
pela nova amiga zelou.

Sansão feliz continuou
e, anjo supremo da casa,
cuida de quem o adotou.

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Propriedade

Quando ela se casou

Acreditou que era “Amor”

Mas como se enganou…

Ele era ciumento,

As amigas dela afastou:

“Elas são má influência.”

Nas roupas dela mandou.

“Essa saia te deixa vulgar.”

Ela tudo aceitava

Sem ao menos reclamar.

“Ele quer me proteger.”

“Se tem ciúmes é que me ama.”

E passou a obedecer,

Cada ordem, sem pestanejar.

Ela deu tudo de si,

Tentando se aprimorar,

Mas sempre havia reclamações.

Um batom vermelho,

Uma camisa mal passada,

Um jantar queimado,

Uma atitude ousada.

E ela o perdoou.

Quando ele a agrediu

Ela se recriminou.

Foi tentando melhorar:

Falava o que ele queria,

Se vestia como ele gostava,

Como ele desejava agia.

Se sentia vazia

Mas em nome do amor

Mesmo assim prosseguia.

Quando ele a possuía

Contra a sua vontade

Ela o absolvia:

“Homem tem necessidade.”

Ela um dia percebeu

Que não era ela mesma

Em choque compreendeu:

Era uma propriedade.

Sem amor, só obediência.

Boneca inflável sem vontade,

Usada sem resistência.

Ela o denunciou.

Quando foi intimado,

Ele fraquejou.

Ela reaprendeu a ser livre,

Ter seus próprios pensamentos,

Vestir o que quisesse

Falar o que lhe conviesse.

Voltou a trabalhar,

Reconstruiu sua vida,

Retornou a sonhar.

Não deseja mais migalhas,

Merece um amor inteiro,

Que não a sufoque, a complete,

Finalmente verdadeiro.

Vida de interior

Cidadezinha do interior
pássaros voam cantando,
cães latem, faz calor,
poucos carros vão passando.

As pessoas se conhecem,
tudo parece estagnado,
todos lentamente envelhecem
seguindo o padrão adotado.

O mesmo dia se passa,
a mesma tarefa refeita.
Em sincronia perfeita
se vivem as mesmas vidas.
O vento morno perpassa
entre árvores adormecidas.

Afundando

Muitas pessoas que caem
Nas garras da depressão
Ao implorarem ajuda,
Ouvem frases que acabam
Agravando a situação.

“Isso é falta de coragem.”
“É preguiça de viver.”
“É falta de fé, vai orar.”
E a doença se expande,
Continuando a imperar.

“Não confie nesse médico.”
“É só ter positividade.”
“Você é jovem, não tem idade.”
“Não tem motivo para isso.”
“Vai viciar em remédio.”

E os pré conceitos crescem,
Derrubam a mão estendida,
Enquanto a mente afunda
Nesse mar de baboseiras
Podendo perder a vida.

Não ignore um pedido
De socorro. Não julgue jamais.
Vários falharam, não seja
Responsável pela morte
De quem tentou a sorte
Confiando no seu conselho,
Até ser tarde demais.

Não há idade, condição,
A doença é misteriosa.
Invade e envenena o coração,
Retira o sabor da vida.
Não seja a onda que afoga!
Seja a mão que puxa,
Que para fora do mar joga.

Ponto de ônibus

Cheiro de combustível,

Pessoas aglomeradas,

No momento empenhadas

Em percorrer seu caminho.

Estão presas pela distância,

Aguardam com ansiedade

Que o transporte da cidade

As leve em segurança.

Olhos míopes se apertam:

“Será que é o meu?”

Tristeza em quem perdeu,

O próximo vai demorar.

Pessoas indo e vindo,

Destinos se entrecruzando,

Veículos buzinando,

Alegremente partindo.

Anônimos heróis

Os poetas costumam

Imortalizar,

Louvar

Apenas heróis famosos:

Pessoas brilhantes,

Reconhecidas,

Importantes,

Favorecidas.

Mas nunca desejam

Louvar,

Imortalizar,

Pessoas comuns

Que vivem em apuros

E são colossais.

Heróis obscuros,

Pessoas normais.

Acham desnecessário

Imortalizar,

Louvar,

Incógnitos guerreiros,

Inocentes milagreiro.

O milagre de cada dia

É vivê-lo com alegria.

A maior proeza conhecida

É a luta pela vida.

Guerra sem esperança de vitória.

Embora seja a mais digna

De entrar para a História.

Em obras

Com a sua mão calejada
o pedreiro, tijolo a tijolo,
constrói uma morada.
Contempla a obra orgulhoso
e parte para outra construção.
Mas, se a obra focar parada,
a estrutura mal acabada
irá se deteriorar.
Somos todos obras de Deus
sem nunca poder deixar
de nos aprimorar.
Somos obras imperfeitas,
constantemente aperfeiçoadas,
permanentemente em construção.
O canteiro de obras
é o nosso coração.

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